quarta-feira, julho 25, 2007

Pan desbotado

Acabo de receber do meu amigo Israel esse artigo, que creio ter descrito exatamente minhas impressões sobre a lamentável abertura do PAN.
Que vergonha! Mas... a direita continua assim, baixa e mesquinha. E o bando de panacas que nao conseguem perceber que estao sendo manipulados fazendo papel de palhaços...

Welcome to Brazil

por Guilherme Scalzilli

Na noite de 13 de julho, durante a cerimônia de abertura dos Jogos
Panamericanos, Lula sofreu um acacha-pante dissabor público. Os milhares
de apupos que ecoaram no Maracanã lotado destruíram a fantasia de
infalibilidade que as pesquisas de opinião trouxeram ao presidente.
Graças à blindagem ilusória, ele estava indesculpavelmente despreparado
para expor-se em situação de tamanha periculosidade, num evento
imprevisível, organizado por raposas notórias, em cidade governada por
um sagaz adversário político, diante de audiência historicamente
indisciplinada e hostil. Ademais, o petista recuou diante de um embaraço
que em outros tempos contornaria com a reconhecida habilidade oratória.
Seu estupor, típico da soberba ferida, deixou o constrangimento
irreversível e deu às vaias aparência de improviso.

Parece repetitivo insistir nas pesquisas de opinião para jogar
suspeitas sobre a sinceridade e a esponta-neidade da manifestação, mas
os números são incisivos demais. A aprovação pessoal de Lula atingiu
espantosos 66% em julho (CNI/Ibope), enquanto o governador Sérgio Cabral
obteve 48% entre os cariocas (Datafolha). No entanto, apenas o prefeito
César Maia (32% de aprovação na capital) foi aplaudido na cerimônia. O
choque entre as estatísticas e a estranha seletividade da platéia
reforça-se quando consi-deramos o ambiente apolítico e ufanista, quase
homogeneamente festivo, que domina cerimônias afins.

A preparação do evento continua mergulhada em mistérios desnecessários.
Por que sabemos tão pouco sobre a atuação de funcionários municipais na
organização da festa? É verdade que o recru-tamento dos voluntários
privilegiou as bases eleitorais do casal Garotinho e do prefeito Maia?
Houve realmente as tais reuniões fechadas para instrução de servidores e
militantes partidários? Como ocorreu o treinamento dos voluntários, que,
durante o ensaio geral, no estádio quase vazio, já demonstravam
predisposição para vaias e aplausos idênticos aos ouvidos na abertura?

Previsivelmente, a mídia oposicionista ignora esses questionamentos,
guardando a energia investigativa para outras conveniências. Tanto faz. O
verdadeiro significado das vaias ilustrará a posteridade, acima de
picuinhas ideológicas, através de sua camada mais visível, crua e
indisfarçável: o vexame generalizado.

Apanhado isoladamente, vaiar Lula e Cabral constitui um gesto legítimo de
catarse coletiva. Entretanto, no contexto da cerimônia de abertura,
embotou uma festa milionária e arruinou um protocolo consagrado em
solenidades internacionais. Essas demonstrações de anarquia tropical
podem até parecer divertidas e serelepes no calor do momento, mas a
observadores rigorosos revelam apenas falta de educação. É o tipo de
comportamento selvagem que compõe o anedotário universal da Banânia, a
republiqueta imaginária que desconhece princípios morais e regras de
conduta.

Dias antes da vergonha, um estadunidense imbecil foi atacado por
insultar os brios tupiniquins. "Welcome to Congo", escrevera ele aos
conterrâneos. Pois nada semelhante ao ocorrido na noite de sexta-feira
acontece nos EUA, tampouco em nações menos venturosas, apesar dos
eventuais problemas que as acometam. Mesmo quando alheios ao patriotismo
tolo, seus cidadãos valorizam a própria imagem perante o mundo. Sabem
que prestigiar empreendimentos de grande visibilidade é também uma forma
de valorizarem a si mesmos. E entendem que, na lógica do cerimonial
terráqueo, aquele bípede bem vestido sublima o indivíduo para
simbolizar uma instituição da República.

Imaturo e caricato, o público do Maracanã mostrou-se despreparado para
abrigar um evento de porte continental. Não foi irreverente, como
quiseram alguns; foi patético. Misturou atuação política e macaquice
jeca, militância e torcida de futebol. Purgou-se dos dissabores
deológicos com uma afronta omissa, que poucos ousam repetir à luz do
dia. Trocou o tédio do ritual civilizado, rara chance de fingir alguma
dignidade, pelo carnaval grotesco da autofagia desdenhosa.

Conhecemos há tempos o perfil dessa multidão ignorante, dotada de
posses, que se despiu da empáfia para uivar no escuro. Estão ali
justamente os maiores críticos do país, cujo atraso amaldiçoam com a
superioridade dos cosmopolitas. Não por acaso, são os mesmos pugilistas
do falso moralismo, que defendem soluções antidemo-cráticas para sanear
os males da corrupção alheia, desde que as próprias benesses permaneçam
garantidas.

È o "ishpérrto" do jeitinho carioca, burguês folgado e malicioso, dado a
contravenções. São as profissionais liberais reacionárias, histéricas e
debochadas, que finalizam discussões comendo dedos de esquerdistas. E
também as madamas grosseironas, com seus maridos brucutus, distribuindo
cotoveladas, insultos e propinas para garantir melhores lugares em filas,
assentos e mesas. E ainda as jovens raquíticas, amedrontadas pelo
povaréu fedido, agarradas aos namorados almofadinhas, confessando
saudades de Bariloche, Aruba ou Miami. E os sábios da
imprensa-de-crachá, os convidados de autoridades insignificantes, os
apadrinhados da burocracia enferma, todos escancarados em sua
vulgaridade, soltando gargalhadas mefistofélicas ante o que julgavam ser
um momento histórico, o risco no teflon, a suprema humilhação do
lulo-petismo.

Pobres diabos. Vaiaram-se ao espelho.

Guilherme Scalzilli, historiador e escritor. Autor do romance
"Crisálida" (editora Casa Amarela).

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